O fantasma da assimilação
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Aportado por: kirschFecha de creación: 2007-09-22 10:04:00 Administrar: Calificación: El artículo no ha sido calificado Visitas: 2271 |
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O fantasma da assimilação
O fantasma da
assimilação
por Bernardo Sorj
O conhecimento e a prática do judaísmo de Theodor Herzl
era, como
sabemos, quase inexistente. Porém, sem ele, provavelmente
não haveria o
Estado de Israel. Na mesma situação encontravam-se Albert
Einstein,
Sigmund Freud e praticamente todos os judeus do século 20 dos
quais,
hoje, tanto nos orgulhamos. Do ponto de vista do judaísmo
ortodoxo a
quase totalidade dos líderes sionistas eram judeus assimilados
(Jabotinsky pediu para ser cremado!), assim como o autor desta nota e a
maioria de seus leitores.
O judaísmo sobreviveu, desde os tempos bíblicos
até hoje, por sua
capacidade de assimilar as mais diversas... |
O fantasma da
assimilação
por Bernardo Sorj
O conhecimento e a prática do judaísmo de Theodor Herzl
era, como
sabemos, quase inexistente. Porém, sem ele, provavelmente
não haveria o
Estado de Israel. Na mesma situação encontravam-se Albert
Einstein,
Sigmund Freud e praticamente todos os judeus do século 20 dos
quais,
hoje, tanto nos orgulhamos. Do ponto de vista do judaísmo
ortodoxo a
quase totalidade dos líderes sionistas eram judeus assimilados
(Jabotinsky pediu para ser cremado!), assim como o autor desta nota e a
maioria de seus leitores.
O judaísmo sobreviveu, desde os tempos bíblicos
até hoje, por sua
capacidade de assimilar as mais diversas culturas. Como mostra Martin
Buber em Moisés, o judeu é um povo nômade, isto
é, um povo que viaja
entre as culturas, que não tem medo de interagir e que descobriu
milhares de anos atrás o que hoje, graças aos processos
de
globalização, está sendo reconhecido como a
condição de convivência da
humanidade: que todas as identidades são híbridas, que
nenhuma cultura
é pura, que as raízes entrelaçadas de todos os
povos se nutrem da mesma
herança comum.
Mas, então, por que falar de assimilação?. Quem
pode definir quem é um
judeu assimilado? O judaísmo é, na verdade, diverso e
pluralista.
Pode-se ser judeu religioso ou ateu; se religioso - conservador,
reformista ou ortodoxo; se ortodoxo - chassídico e não
chassídico; se
chassídico, pode-se escolher entre as diversas seitas – que mal
se
falam entre si -, ou, ainda, ser sionista ou não sionista; se
sionista,
religioso ou não religioso, de direita ou de esquerda, e assim
por
diante.
Então por que falar de assimilação? O único
momento da História judaica
em que o conceito de assimilação, no sentido estrito de
uma atitude
consciente de negar e abandonar o judaísmo, pode ser aplicado,
ocorreu
na Europa Central, particularmente na Alemanha, no século 19 e
nas
primeiras décadas do século 20, quando a conversão
ao cristianismo era
uma estratégia de ascensão social num contexto em que
estavam vedadas
aos judeus - legalmente ou de fato - posições na esfera
pública. Mas,
hoje, esta situação não existe em praticamente
nenhum lugar do mundo e,
portanto, este problema não se coloca.
Os judeus do século 20 usaram e abusaram do conceito de
assimilação,
basicamente como uma estratégia para desqualificar e demonizar
outras
tendências das quais discordavam. Assim, eram definidos como
assimilados os judeus não religiosos pelos religiosos, os
conservadores
e reformistas pelos ortodoxos, ou os não sionistas pelos
sionistas,
para dar alguns exemplos. Hoje, a perspectiva histórica nos
ensina que
todos estavam errados, no sentido de que nenhuma forma de
judaísmo
esgota todas as suas possibilidades, e que cada inovação
- como, por
exemplo, foi na sua época o sionismo - representa uma
contribuição que
fortalece o judaísmo.
Nos tempos atuais o fantasma da assimilação ainda
é utilizado pelas
lideranças comunitárias para assustar a si mesmas e aos
membros da
coletividade, funcionando como mecanismo de mobilização
de medos e
recursos. É uma estratégia, mas uma pobre
estratégia, pois distante da
experiência das novas gerações e de tudo que a
História judaica ensina.
A sobrevivência do judaísmo no Brasil depende de sua
capacidade de ser
cada vez mais "assimilado", de integrar a escola de samba no Purim, de
mostrar as inter-relações entre a História do
Brasil e os judeus, de
fazer tzedacá junto às populações carentes,
de absorver os casamentos
mistos reconhecendo neles um caminho de enriquecimento da comunidade e
do judaísmo.
Para entender a realidade social precisamos de conceitos que nos
permitam localizar onde estamos e para onde vamos, que nos permitam
medir o mundo. A assimilação é um destes
conceitos. Mas é um falso
conceito e uma má medida. Dá a ilusão de que nos
distanciamos de um
mundo ideal ao qual devemos retornar, retirando o principal instrumento
que pode assegurar a reprodução de uma comunidade: a sua
renovação
através da participação e absorção
criativa da cultura local. A
questão, portanto, não é quão assimilados
são os judeus do Brasil, já
que ninguém está em posição de ser juiz de
seu próximo, mas qual é a
riqueza do judaísmo brasileiro, quanto conseguiu produzir e
inovar para
transformar-se em referência criativa para cada um de nós.
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